Casas de Farinha: Entre a Terra, a Memória e a Partilha

Antes de ser alimento, a farinha de mandioca já era cultura. Sua história remonta aos povos indígenas, que aprenderam a dominar a mandioca e a transformá-la em sustento, saber e tradição. Esse conhecimento atravessou gerações e consolidou-se como um dos pilares da identidade nordestina.

Em Sergipe, as casas de farinha surgiram como espaços de trabalho e convivência. Eram lugares onde a lida diária se misturava à partilha, à conversa e à transmissão de saberes. Cada etapa do processo — da colheita à torração — acontecia de forma coletiva, fortalecendo vínculos e mantendo viva a herança cultural.

O fazer da farinha e a sabedoria das mãos

O trabalho nas casas de farinha sempre exigiu atenção, força e cooperação. Arrancar a mandioca da terra, raspar, lavar, colocar de molho, prensar, peneirar e torrar eram gestos aprendidos com o tempo, repetidos com respeito e precisão.

Os fazedores e fazedoras de farinha carregam um conhecimento que não se aprende em livros. É um saber construído no fazer, transmitido pelo olhar atento dos mais velhos e pelo convívio comunitário, resistindo mesmo diante das transformações trazidas pela mecanização e pela monocultura.

No calor do forno, o saber antigo se renova: a farinha sendo mexida no tempo certo, no gesto aprendido com os mais velhos.
No calor do forno, o saber antigo se renova: a farinha sendo mexida no tempo certo, no gesto aprendido com os mais velhos.

Lembranças que moram na casa de farinha

Para muitas pessoas, a casa de farinha também mora na memória da infância. Especialmente durante uma semana religiosa, o espaço se transformava em ponto de encontro. Vizinhos se reuniam, o trabalho ganhava outro ritmo e o tempo parecia desacelerar.

Entre essas lembranças, estão Dona Santa e Seu Guardino, figuras queridas da comunidade. Dona Santa cuidava da massa com atenção e experiência, enquanto Seu Guardino zelava pelo forno, atento ao fogo e ao tempo certo. Em torno deles, o trabalho seguia acompanhado de conversas, risos e silêncios compartilhados.

Durante a descasca da mandioca, as mulheres e as famílias costumavam cantar. As cantigas davam leveza ao ofício, faziam o tempo passar mais depressa e transformavam o cansaço em ritmo e convivência. A roda formada ao redor da mandioca era também uma roda de histórias e afetos.

Em roda, a mandioca vai sendo descascada entre conversas, cantigas e partilha — o trabalho se transforma em encontro.

Sabores e sons que marcaram

Durante a semana religiosa, a casa de farinha ganhava outros aromas e significados. Enquanto a farinha ainda não seguia para a torra, muitas famílias traziam coco ralado e um pouco de sal. Com esses ingredientes simples, preparava-se o beiju, feito da massa fresca da mandioca.

Assado no calor do forno, o beiju era servido ainda quente e quase sempre acompanhado de uma caneca de café, passado na hora. Entre uma fornada e outra, esse momento funcionava como pausa e encontro, quando o trabalho dava lugar à conversa e à partilha.

Mais do que alimento, o beiju fazia parte de um ritual. Era sabor, afeto e memória, marcando para sempre quem viveu esses momentos simples e profundos nas casas de farinha.

Outra situação que marcava a rala da mandioca eram as cantorias. Cantando juntas, o tempo passava mais depressa, e o que parecia cansaço se tornava um só ritmo e uma só canção. Na casa de farinha do povoado Canal de São Sebastião, a senhora Maria Lenaide, que utilizava a casa de farinha na década de 60, costuma lembrar a cantiga:

“Casa de farinha,
banco de ralar mandioca,
acabou a moreninha
que me dava tapioca.”

As casas de farinha em Barra dos Coqueiros

Em Barra dos Coqueiros, as casas de farinha tiveram papel fundamental na vida comunitária. No Sítio Oliveira Martins, muitas famílias produziram farinha nas décadas de 1960 e 1970, fazendo daquele espaço um importante ponto de referência.

Nos povoados Olhos d’Água e Capoã, a tradição seguiu firme, assim como no povoado Canal de São Sebastião, onde funcionava a casa de farinha dos irmãos Zézé de Marcos e Manoel de Marcos, sempre utilizada pela comunidade local.

Já na década de 1980, a produção acontecia também em uma casa de farinha localizada na Avenida Oceânica, em frente ao local onde hoje funciona a Caixa Econômica.

Esses espaços marcaram profundamente a história do município, não apenas pela produção da farinha, mas pela forma como reuniam pessoas, fortaleciam laços e mantinham viva a cultura do trabalho coletivo.

Mais que farinha, identidade

As casas de farinha não produziam apenas alimento. Produziam encontros, ensinamentos, memórias e pertencimento. Em Sergipe — e especialmente em Barra dos Coqueiros — elas fazem parte viva da história e da identidade do povo.

Resgatar essas narrativas é valorizar quem somos, de onde viemos e o modo simples — e profundo — com que nossa gente aprendeu a transformar a terra em sustento, o trabalho em partilha e a memória em herança cultural.

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